CAFÉ DA DOCA

Dezembro à beira do cais,
Mondego alto, jornais,
e alguém chamando da porta,
casacão de vento em popa,
alma e vapor pela boca.

SEIS DA MANHÃ

Para começar bem o dia,
antes que o dia me veja,
ponho-te aqui de bandeja
a meu lado,
rosto de amor,
extenuado.
Hoje o teu corpo,
onde quer que ele esteja,
vai ter de se erguer sozinho,
respirar sozinho,
sair sozinho,
e tudo lhe vai parecer estranho,
estranha a luz, estranho o tamanho
do caminho.

CHÁVENAS

As chaveninhas da avó,
repartidas em partilhas
por netas, noras e filhas,
lembram-me as chávenas da feira
com tatuagem Lembrança
gravada a ouro na pança.
Todas elas são de saldo,
nunca a salvo,
todas vêm do desterro
e trazem no aro fino
um óculo cego, um destino,
um erro.
Anjos de uma asa só,
leve penugem de pó.

PORCELANA

Já bebi canja por chávenas,
há chávenas que aturam tudo:
gelo, quentura, pires sujos,
vitrinas, pevides, gripes,
lágrimas, baba em canudo,
tudo,
à espera do dia-não
em que nos caiam ao chão.

La chienne de Jimmy au jardin

Pendant que tu lis, Jimmy,
j'arrose de fils de bave
le sable.
Ça fait déjà une rigole,
les feuilles sèches s'y collent...
Quelle bave de qualité!
Sûr qu'on peut coller avec
des statutues grecques cassées,
et là j'aurai mes entrées
dans les musées --
et toi aussi, mon Jimmy,
si par hasard tu devines
ce secret de mes babines.
Ah Jimmy, Jimmy,
il est midi et d'ici
jusqu'au soir tout l'impossible
est possible.

Regra

Para publicar poemas de amor,
a regra é esperar 5 anos.
Ao fim dos 5 anos,
os que servirem para letras de fado
conservam-se.
Os outros rasgam-se,
muito bem rasgados,
e enterram-se,
mas não pode ser ao pé dum canavial.

HORAS

Sou pequena,
finjo que ainda não acordei.
"-- Oito horas", chama a minha mãe.
O quê? Não quero horas todas juntas,
às oito, às doze, às dez
de cada vez!!
"São horas", repete ela.
Ah, assim está bem.

A CAMINHO DE ITÁLIA

"Não nos podemos disfarçar,
por mais que façamos",
constatou o capitão Alonso de Contreras
quando o prenderam
vestido de peregrino,
frente às muralhas de Jalons.
Ele não estava a fazer nada de mal,
fitava as corcovas das torres.
Enquanto se defendia à bordoada,
o bordão oco partiu-se,
caíu a espada
escondida lá dentro.
Levaram-no de rastos para a masmorra.
"-- O porco do espanhol é espião!..."
Em caminhos compridos
sempre há descontos
e estrondos.

(Baseado na Vida do Capitão Alonso de Contreras
(1582-1633), Teorema, Lisboa, 2006, p. 117)

A MULA ROMANA

Ofereceu-me o Papa
a Dom Frei Bartolomeu dos Mártires,
arcebispo de Braga.
Fê-lo por graça,
para reunir na mesma imagem
um homem feíssimo
e uma besta fermosa.
Porém, o arcebispo trocou-lhe as voltas.
Traz-me à carga desde manhã até à noite,
a acarretar lenha, pipas, sacas...
Quando me encontra
dá-me palmadinhas,
todo ele balbúrdia,
olhos tortos, pulgas à luta,
retenção de urinas.
Trata-me por vós, por troça,
como se isso me pudesse ofender:
"-- E vós, Águia, cuidáveis
que havíeis de ser cá privilegiada?
Mal vos enganastes,
que na casa do pobre todos são pobres,
e não come senão quem trabalha".
"Cala-te, zarolho!",
respondo-lhe eu em pensamento.
Desmaiar nos trabalhos
não é para corações briosos.
Sou fermosa em passeio
e fermosa em corpo,
fermosa sempre até ao fim,
peça de príncipe.

(Águia, mula romana, chegou a Braga na década de 1570.
Baseado em Frei Luís de Sousa, A vida de D. Frei Bartolomeu dos
Mártires, Lisboa, 1984, pp. 636-637)

Meu amor

Meu amor, não te respondo.
Escondo as cartas num dossiê
e aguardo que tudo passe
e me passes como a face
da lua, de D a C.
Lá por fora há pinheirais,
areias de vidro ao vento
e um rio em escamas sedento
de ti que não voltas mais
nem que eu morra.
Tomara chuva em tesoura,
da mais grossa, da que estoura...
O que está feito está feito,
corto por mim a direito.

(La petite Histoire)

NOITE PÊNSIL

Sonhador da noite pênsil,
que imagem após imagem
deixas cair na voragem
do sono um cabelo, um pêlo,
um pedacinho de pele,
um fio desenfiado,
o passado que foi teu...
Fazes girar pelo abismo
minúsculos pontos em chama
que pela manhã hão-de ser
cotão debaixo da cama.

SEMPRE

Embate de face a face,
esquina a esquina,
sina canina,
quem te beija
te fareja.

NADA DE NADINHA

Nada de Nadinha
anda a passear pela linha
do horizonte, em Cascais.
A linha é fina de mais,
vai não vai, quase descai
na massa mansa do mar...
Nada de Nadinha avança
e a gente fica a olhar.

*
-- Ai vizinha,
vi o Nada de Nadinha,
descalço, de rabo ao léu,
a entrar pela Loja das Calças
para comprar
meias-calças!!

*
Nada de Nadinha
sentado ao sol causa espanto:
puro branco em branco
banco de três pés,
um pouco manco.

*
Nada de Nadinha
está parado no jardim,
além, de costas para mim.
Zangou-se não sei porquê.
Nem eu o vejo,
nem ele me vê.

*
Nada de Nadinha
patina pelo céu azul,
vai-o riscando com giz.
Não há Nada mais feliz.

* Quando Nada de Nadinha
era novo e viajava, foi a Java
numa carrinha Renault,
por terra e mar, sem parar.
Assim que lá se apanhou,
deu meia-volta e voltou.

NO QUINTAL AO MEIO-DIA

No quintal ao meio-dia
não são as nêsperas frescas
que atraem vespas,
são as nêsperas do chão.
Por serem doces caíram,
foram tocadas pelo Verão.

ASSIM-ASSIM

Metido entre Muito e Pouco,
Assim-Assim nunca sabe
quanto lhe cabe.

A COBRA, O MILHAFRE E O BOI - III

Cobra nova deixa rasto
de brilho por entre o pasto.
Mergulha de alto o milhafre,
fugir-lhe é que ela não pode,
ainda não sabe. O chão explode,
a terra acaba, o céu dói.
A tremer ficou o boi,
nem sequer segura a baba.
Quer mugir, mas está gago:
"Mu...u-u-u!
Raio da cobra, carago,
tive a morte aqui ao lado!"
Perdeu a força nas pernas
e as luzes por entre as ervas
lembram-lhe manchas e trevas.

A COBRA, O MILHAFRE E O BOI - II

Mergulha de alto o milhafre,
fugir-lhe a cobra não pode:
solta um silvo, a areia explode,
tudo se acaba, o céu dói.
A tremer ficou o boi,
nem sequer segura a baba:
-- Ai o estafermo da cobra...
Grande manobra, compadre,
quem sabe, sabe!

A COBRA, O MILHAFRE E O BOI - I

Assim que a cobra se esquece
do perigo, o milhafre desce.
Para ela já é tarde.
Silva a areia, o rio arde,
o céu dói. O boi aplaude
a manobra:
-- Caramba, que bruta cobra!
Quem sabe, sabe, compadre!...

ÁLEA

De manhã três dúzias
e à tarde outras três
dúzias de tílias plantadas
ao longo de um cordel esticado,
enquanto o capelão velho vigiava da janela.
Para o jardineiro, soltar aquele cordel
foi soltar a alma: "Ah!"
A mata ao longe, em muralha,
sustentava todo o entardecer.
Caminhando de costas para o palácio,
com a meada de cordel no bolso,
o jardineiro lembrou-se da mulher,
baixinha ciciosa, de roca à cinta.
Ainda antes de ele entrar em casa,
logo que os cães dessem sinal,
ela despejava água quente na selha,
para ele lavar os pés em frente ao lume.

O capelão ainda continuava à janela,
tentando encostar a testa à vidraça
sem encostar também o nariz.
Aquelas tílias durariam séculos,
caso resistissem a incêndios, pragas, nevões,
tropas invasoras
e dívidas de jogo.

PASSEIO À FLORESTA DE PERRAULT

Lá para trás houve um momento
em que o bosque ensurdeceu
e se fez lento.
Mas nós não demos por nada.
Enganámo-nos na estrada,
estamos na cova dum dente
e o céu quente que nos cobre
é o da boca do Ogre.

ALMAS

Alma de cão cheira a cão
e alma de gato a gato,
mas alma de gente cheira
como a do rato a sovaco,
a medo azedo, a buraco.